Selo Gazeta Pará-minense
Logo Gazeta Pará-minense Fundador: Francisco Gabriel Bié Barbosa

Alcance, credibilidade e imparcialidade,
desde 1984

Ano 42 - Nº 2125

04 de Junho de 2026

2125

QUEM FOI

Historias

03/06/2026
QUEM FOI

João Batista Ribeiro da Silva nasceu em Caetanópolis/MG, no dia 24 de junho de 1915, filho de Lucinda de Paula Freitas e João Ribeiro da Silva. Iniciou sua carreira de trabalhador na Cedro Cachoeira, naquela cidade e, mesmo só possuindo o 4º ano do ensino primário, já se destacava pela capacidade de fazer cálculos matemáticos usados para ajustes mecânicos no maquinário do setor de fiação, o que lhe conferia qualidade na produção do fio em algodão, mesmo sendo utilizado maquinários rústicos. Chegou em Brumado de Pitangui/MG na década de 40, para assumir o setor de chefe de produção de fiação na empresa Cia. Tecidos Pitanguiense. Conheceu na fábrica Juliêta Leão, com quem se casou nos Anos 40, com quem teve oito filhos, cinco mulheres e três homens. Na década de 60, a Cia. Fiação e Tecelagem Pará de Minas, tendo como proprietária a família Resende Camargos, estava passando por uma seríssima crise na gestão de qualidade do fio de algodão e, consequentemente, seus artigos, o que impactou sua área comercial e financeira. Seus proprietários estavam à beira de fechar as portas, quando lhes foi levado o nome de João Batista, destacando que ele possuía um conhecimento bastante apurado e que, com certeza, poderia resolver os problemas de qualidade do setor de fiação. Assim, a família Camargos fez contato com ele e, depois de exporem os problemas que vinham ocorrendo, o convidaram para trabalhar nela e ele aceitou a tarefa. Alegou que não gostava de ver fábricas fechando, pois o ramo têxtil era o que mais empregava, principalmente pais e mães de família. Mudou-se com a família para esta cidade, assumiu a gerência do setor de fiação da empresa e, com seu conhecimento, carisma ao tratar todos os funcionários, firmeza em suas opiniões com a diretoria, em pouquíssimo tempo, identificou todos os problemas de má qualidade do fio, corrigiu-os e a empresa começou a ter um fio de excelente qualidade, o que proporcionou a retomada de suas atividades normais no mercado. A conhecida Fábrica do Sítio, naquela época, começava a produzir a sua linha de fraldas, flanela e artigos para recém-nascidos, com tanta qualidade, que a fez líder de mercado por décadas, empregando centenas de trabalhadores em três turnos de trabalho e comercializando sua produção com meses de antecedência. Nos Anos 90, começou a produzir fraldas para a empresa norte-americana Jonhson & Jonhson e também para a Catarinense Cremer. Na década de 70, o doutor Floriano Campolina de Resende Camargos, um dos proprietários da Cia. Fiação e Tecelagem Pará de Minas, teve a iniciativa de construir uma outra indústria têxtil em Pará de Minas, para a produção e comercialização tão somente de fio de algodão. Chamou, então, o Batista e lhe fez a proposta de assim que a planta estivesse pronta, ele pudesse se desligar de onde estava e assumir a gerência da nova empresa. Após algum tempo, nascia a Fiação Brasileira de Algodão, a conhecida Fibral, empresa que até hoje as pessoas citam, ao se referir sobre o bairro São Pedro. Ele assumiu a gerência e, após um breve período, já obtinha um fio de extrema qualidade. Seu proprietário inscreveu esse fio produzido por ela em um evento criado pela Associação Brasileira de Técnicos Têxteis (ABTT), realizado em São Paulo/SP, todo ano, onde técnicos têxteis do fiação, convidados para serem jurados, analisavam amostras dos fios apresentados e davam suas notas. Ocorreu que o fio produzido pela Fibral foi premiado como o Melhor Fio de Algodão do Brasil naquele ano, algo inédito para o setor têxtil do Sudeste, pois, tradicionalmente, esse prêmio era concedido a grandes empresas localizadas no sul do país. Esse feito teve grande repercussão em todo o país e abriu as portas para que a Fibral pudesse comercializar toda sua produção, quando os maiores empresários do país queriam adquirir o seu fio, como também contratar nosso pai para trabalhar para eles, oferecendo quantias muito superiores a que ele recebia. Porém, nenhum deles obteve sucesso, pela lealdade de João Batista ao proprietário da fábrica, que se tornou seu amigo pessoal, por toda a vida. Ele também se recusou a comparecer no evento de premiação para receber seu troféu, deixando a cargo da diretoria da fábrica. Na gerência da Fábrica do Sítio e Fibral, diversas pessoas faziam fila em frente à casa dele, no horário do almoço, depois do expediente ou aos sábados e domingos, solicitando vaga de trabalho. Ele atendia a todos e, quando não era possível encaixar o(a) candidato(a), ao ouvir deles que a situação em suas casas estava complicada, ele sempre dava um jeito de suprir a família com um  mínimo possível, para que eles não passassem necessidades. Na maioria das vezes, pedia à sua esposa para retirar algo para ele(a), na dispensa da casa. Depois da justa aposentadoria, ele ainda trabalhou por vários anos, prestando serviços em indústria têxteis com problemas de produção e qualidade no fio de algodão, sendo que em nenhuma delas ele retornou para casa, sem obter êxito. Nos Anos 90, ele recebeu um telefonema da Sulfabril Malhas, de Santa Catarina, dizendo que a empresa estava com a produção de camisetas paralisada, devido a um defeito no fio de algodão, o que estava impedindo a confecção. Explicou que eles haviam trazido da Alemanha alguns técnicos, mas que eles não haviam conseguido solucionar o problema. A pessoa relatou o problema e ele disse tinha uma noção do que se tratava. Enviaram um motorista aqui e ele foi até Santa Catarina. Em aproximadamente 3 dias, ele detectou o defeito, orientado os mecânicos, operadores de máquinas, coordenadores e pessoal de laboratório sobre o que fazer para eliminá-lo. Depois das providências tomadas, aguardou a produção do fio de um dia, o que significava muitas toneladas, quando os controladores de qualidade o procuraram e disseram que o problema estava sanado. Aí, os gerentes lhe ofereceram um cargo na empresa, com a mudança de sua família para Santa Catarina com moradia garantida, além de um bom salário, mas ele recusou a proposta, alegando que queria ficar em sua cidade, junto de seus familiares e amigos. Depois de alguns dias de seu retorno, chegou, via Correios, uma placa de Honra ao Mérito com um cartão de agradecimento. João Batista foi também convidado para ingressar na política, por ser bastante conhecido e admirado, mas nunca aceitou, apesar de se tornar amigo de praticamente todos os prefeitos de sua época. Vale destacar que na ditadura militar de 1964, ele foi empossado interventor no Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem de Pará de Minas, tendo seu retrato exposto no salão nobre. Católico fervoroso, devoto de São José, veio por desígnio de Deus, falecer, aos 86 anos, na madrugada do dia 1º de maio de 2001, vítima de parada cárdio respiratória, no Hospital Nossa Senhora da Conceição. No seu velório, apesar de ser um feriado nacional, centenas de pessoas compareceram e muitas mães choraram ao lado de seu caixão, declarando que ele havia feito muitas coisas pelas famílias delas, mas pedia para não contar pra ninguém. Ele foi sepultado no cemitério Santo Antônio, nesta cidade, que ele tanto amou e considerava como sua terra natal!

* Por isso, João Batista Ribeiro da Silva mereceu ter seu nome eternizado em Pará de Minas, por meio de um logradouro público, situado no bairro Recanto da Lagoa.

JOÃO BATISTA RIBEIRO DA SILVA?

Mais da Gazeta