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Ano 42 - Nº 2135
14 de Agosto de 2026
Maria Bernarda, filha de Bernardo Portela dos Santos e Realina Ramos, nasceu em Teófilo Otoni/MG, em 17 de junho de 1939. Teve 2 irmãs, ambas falecidas. Viúva em 2006 de José Ferreira Machado, auxiliar de trator, 66, ela teve 3 filhos, Mário Lúcio (+), Rita de Cássia e Lucimar. Teve dois netos, Mateus e Luan, mas o 1º morreu aos 7 anos. Para saber mais sobre a história de vida dela, a reportagem GP conversou com Maria Bernarda. Acompanhe.
“Quando eu nasci, minha mãe tinha 24 anos de idade e havia perdido o meu pai, 28 anos, 8 meses antes. Ele foi mexer com esgoto, teve uma febre muito forte, era tifo, e ficou 8 meses no hospital, até falecer. Ele trabalhava como marceneiro autônomo e minha mãe não trabalhava. Então, a minha vida foi bem difícil, porque eu nasci 1 mês e pouco depois. Aí, minha minha mãe começou a trabalhar nas feiras, vendendo coisas. Tinha hora que ela ia no quintal, para ver se colhia uma abóbora, para ela fazer e a gente comer. Não tinha nada, a gente vivia numa tristeza, passando fome, muita fome... Mas a minha mãe era uma maravilha de pessoa e não quis saber de namoro mais não. Ela falava que ela não podia amar ninguém, porque tinha que criar gente e um padrasto podia maltratar a gente. E assim, eu, a vida toda, fui triste. Atentada que eu era, ia na escola só para bater nas outras crianças. Como não estudava, fiquei 7 anos no 1º ano, mas, depois, estudei e cheguei ao 3º ano, mas não o completei. Gostava mesmo era de jogar futebol e andar de bicicleta,” relembra Maria Bernarda de sua triste história.
E A ADOLESCÊNCIA? – “Problemas sempre também (riso), porque eu engravidei, tive um filho, depois, tive outro, em seguida tive um aborto, mas depois nasceram mais dois. Era muito triste, porque, de novo, não tinha nada pra gente comer. Fui mãe solteira desses meus três filhos.”
CASAMENTO E FILHOS - “Lá, em Teófilo Otoni, a gente morava no morro, lá no alto, de onde dava para ver o hospital, onde conheci o meu marido, que estava fazendo tratamento de próstata. Nessa época, eu tinha 30 e poucos anos e eu tinha uma irmã que era muito parecida comigo. Nós até parecíamos gêmeas. Tinha hora que ele mandava a mão pra ela ou mexia com ela, pensando que era eu (riso). Como ele trabalhava no DER, eu fui viver com ele, para poder tratar e cuidar dos meus filhos. Levei dois, porque a minha mãe ficou criando do mais velho. Ela queria que ele fosse médico, mas não ela tinha condições de ficar com os outros dois. Infelizmente, ele faleceu no terceiro ano científico e eu fiquei só com os dois mais novos... Quando ele foi convidado, pelo DER, para se mudar de Teófilo Otoni para Pará de Minas, eu comecei a trabalhar aqui, como empregada doméstica, além de lavar roupas pra fora. Vivemos juntos 37 anos, dos quais 4, casados. Em 2006, ele teve um AVC e faleceu.”
HOJE EM DIA - “* Minha filha mora aqui, ela é professora, e meu filho mora em Vitória/ES, trabalhando com química, fazendo detergente, desinfetante, essas coisas. * Eu mexo com bijuterias, faço bonecas e vendo todas, seja na feira, aos sábados, ou na rua mesmo. E assim vou levando a vida. Recebo pensão do meu marido, que me ajuda a viver. * Depois que meu marido morreu, eu arrumei mais três (riso) e dois faleceram. Um deles ficamos juntos 14 anos. Era uma bênção de pessoa, mas ele faleceu há 4 anos. Ele foi o melhor que eu tive. Antes dele eu tive outro que faleceu também. Aí, eu arrumei uns rolinhos aqui, outros rolinhos ali (riso). Arranjei outro, daqui do asilo, mas ele ficou lá em casa só 3 meses e depois voltou pra lá, porque não deu certo mesmo. Nossas naturezas não bateram. * Gosto de dançar, passear, sair, porque não gosto de ficar em casa. Não gosto de solidão! Venho no Centro de Convivência dos Idosos todos os dias, de segunda a sexta-feira, para jogar baralho e buraco, mas faço atividades. Canto no coral, mexo com culinária, bordo e pinto panos de prato. Faço todas as atividades que têm aqui. * Graças a Deus, vivo com o salário do meu velho e tenho a minha casinha pra morar. * Estou com um problema grave nos rins. Tenho que fazer hemodiálise, mas não quero, porque estou um caco, não estou aguentando andar, meu joelho dói. Eu danço aqui, o meu joelho dói, mas eu não quero ficar presa em casa. * Estou vivendo mais aqui do que na minha casa. Saio às 8/10H de lá e só volta às 17H30/18H, quando assisto novela e outros programas, até tarde. * Moro na Vila Ferreira e tenho que pegar duas conduções pra chegar aqui. No morro onde eu moro, eu desço bem, mas subir eu não subo, porque não dou mais conta. * Os jovens de hoje precisam ter mais juízo, pra Deus abençoar eles. * Um momento feliz pra mim é quando eu estou com meus amigos aqui. Minhas amigas são muito bacanas, maravilhosas! * O momento mais triste pra mim é ficar sozinha, na minha idade... * Como eu tenho horror de trovão, minha filha mora encostadinha na minha casa, mas eu estou sempre sozinha, na minha casa. Na hora em que eu entro na minha casa sozinha me dá uma tristeza tão grande! É muito difícil a solidão. Moro aqui há 53 anos. Sinto saudade da minha família, que era pequena - minha mãe, uma tia e um tio. Sinto falta da vida que eu tive, principalmente na época da minha mãe, com minhas irmãs juntas e os meus filhos. * De Pará de Minas eu não sinto falta de nada, porque o que eu frequento os forrós daqui, no Vila Maria, no Casa Velha. Mas quando eu volto para casa, sinto falta dos amigos que já se foram. Nunca fiquei sozinha, mas agora tem 4 anos que estou sozinha. * Eu não sei dar uma receita para chegar na minha idade, porque cheguei aqui, apesar da vida muito difícil que eu tive, passando fome, necessidades, vendo meus filhos passando fome... * Ultimamente, quase não me alimento, mas tomo muito remédio, mas agora dei pra tomar tudo errado (riso). Talvez a receita seja a minha fé em Deus, porque é Ele que vai me levando, cuidando de mim e eu sempre rezando, sempre na igreja!”
MARIA BERNARDA, 87