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Ano 42 - Nº 2117
10 de Abril de 2026
Confesso: tenho uma antipatia silenciosa - dessas que não fazem escândalo mas fazem carte interna - pelos usuários deselegantes de celulares. Eles estão em toda parte. No teatro, no aniversário, no pôr do sol que se derrama generoso no horizonte. Estão no show, na formatura, na mesa do restaurante aonde a comida esfria enquanto a fotografia aquece. São rápidos no gesto: qualquer emoção ameaça acontecer e - zási - o celular é sacado como se fosse um talismã contra o esquecimento. A justificativa é sempre nobre: Estou registrando para guardar de lembrança. Curioso. Parece que já não confiamos mais na memória orgânica, na pele, no coração, na inteligência sensível que elabora o vivido. É preciso terceirizar a lembrança a nuvem. Mas o que me inquieta não é o registro em si - fotografar é humano, contar histórias também. O que me incomoda é a substituição. A experiência virou cenário; o momento, o conteúdo; a vivência, arquivo. Veja por exemplo, as pessoas assistindo a um concerto, por meio da própria tela, Não olham o pianista - olham a imagem do pianista capturada pelo celular que seguram a poucos metros do palco. O som vibra no ar, mas elas estão preocupadas com o enquadramento. A criança sopra velas, mas o adulto ajusta o foco. O mar quebra na areia, mas alguém calcula o melhor ângulo para parecer espontâneo. E então me pergunto: quando foi que começamos a preferir a prova à presença? Há algo de profundamente moderno e profundamente triste nisso: a ansiedade de garantir que o momento existiu. Como se viver não bastasse. Como se a memória só tivesse validade se pudesse ser exibida. Enquanto filmam, não tremem. Enquanto fotografam, não silenciam. Enquanto postam, não elaboram. E o mais paradoxal: acumulam milhares de registros e ainda assim, parecem cada vez mais pobres de lembranças verdadeiramente digeridas. Porque memória não é acúmulo; é transformação. Não nasce do clique, mas da experiência que atravessa o corpo, a cognição e a alma - e deixa marca. Talvez, minha antipatia seja, no fundo, um lamento. Um lamento pela arte de estar inteiro. Pela capacidade de assistir a algo com os dois olhos livres, mas mãos desocupadas e o coração atento. Não sou contra celulares. Sou contra a ausência de disfarçar de presença. Porque há momentos que não pedem registro - pedem reverência. E certas experiências não querem ser arquivadas. Querem ser sentidas.
Não deixe de ler o oportuno texto de Larissa Assunção Rodrigues (C), psicóloga, mestre em psicologia e professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela é sobrinha da escritora local, Lígia Muniz