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Ano 42 - Nº 2131
17 de Julho de 2026
Os trabalhos dele são desenvolvidos, principalmente, com tinta a óleo sobre tela, em grandes formatos que permitem explorar detalhes, profundidade e intensidade de cores. Com o tempo, o spray passou a integrar as obras dele de forma natural, agregando novas texturas, contrastes e efeitos visuais. A combinação das duas técnicas resultou em composições que unem a tradição da pintura com elementos da arte contemporânea. Foi por isso que, para compor a 298ª Mostra GP, a GAZETA convidou o arquiteto e artista plástico Leopoldo Mendes, 38, solteiro, residente no bairro Coração de Jesus. Sua mostra ficará exposta na recepção do jornal até o fim de agosto. Veja o que ele falou à reportagem GP.
“Gosto de atividades que exigem foco e aprimoramento, desde aprender uma nova técnica de desenho ou pintura, uma nova forma de expressar artisticamente, um novo instrumento, um novo livro, um novo curso, um novo trabalho que na prática irá desenvolver capacidades internas talvez adormecidas. Busco cuidar do meu bem-estar, com atividade física e meditação, desenvolvendo uma disciplina que acaba refletindo em outras áreas. Por já ter morado em diversas cidades, busco manter uma essência nômade, com o olhar sobre a cidade marcado pela busca de experiências autênticas e pela observação atenta aos detalhes do cotidiano. Dessa forma, percebo o meio urbano como um organismo vivo, repleto de vivências genuínas e nuances que podem passar despercebidas aos mais apressados. A arte surgiu na minha vida ainda na infância, inicialmente como uma maneira sutil de divertir. Na escola Coopen/BH, tive a sorte de ter aula com o artista Rui Santana, que sempre colocava músicas inspiradoras, fazendo do momento de pintura algo leve, muito agradável e divertido. Por meio do desenho e da pintura, ele foi nos ensinando a enxergar o mundo e a nós mesmos, com mandalas e desenhos de observação, nos levando à montanhas e igrejas históricas, no interior. Foi ele quem nos ensinou a pintar com tinta acrílica sobre tela. Em 1997, aos 9 anos de idade, vendi o meu 1º quadro, que havia sido premiado em um congresso, em Paris/França. Todo ano, viajávamos para museus, como Masp e Museu Imperial. Fazíamos exposições coletivas e o que era só diversão foi começando a tomar outras proporções. Aos 13 anos, fiz a minha 1ª exposição individual, no Cine Café (hoje Estação Cultural), bem como todo o processo, desde a produção dos quadros até a exposição. Foi muito interessante e vi que era isso que eu realmente gostava. Quando chegou a hora do vestibular, decidi romper os limites da moldura e unir a arte à técnica (arkhé+téchne), quando a minha opção foi a arquitetura. Na intensão de criar arte que não seriam apenas observadas, mas vividas e experimentadas com o corpo, mente e espírito. Durante o curso, aprendi inúmeras técnicas de desenho, que eu tinha curiosidade de saber na infância. No 2º período, já me tornei monitor na disciplina de desenho, função que desempenhei durante três períodos, aprimorando cada vez mais as técnicas e percepções do mundo, interno e externo. Em 2011, tranquei a faculdade, para fazer uma exposição. Era a arte pulsando em minhas veias, pedindo para eu me expressar. Foi aí que fiz a inauguração do Espaço Rui Santana, na Coopen/BH. Durante esse período, conheci o Inhotim, que expandiu, ainda mais, o meu campo de percepção e possibilidades, que uniam arquitetura e arte. Não sabia ao certo quando seria a hora de fazer obras daquela magnitude, porém cabia a mim ir me desenvolvendo para estar pronto, para quando a hora chegasse. Ao me formar na faculdade de Arquitetura, em 2013, fui convidado pelo artista Fernando Vignoli, para pintar em seu ateliê e acredito que isso foi um ponto crucial na minha profissionalização. Orientado por ele, aprendi não só a pintar com tinta a óleo em grandes formatos. Influenciado pelo surrealismo que ele expressava em suas obras, fui percebendo e aprendendo que a obra podia contar histórias. E que o trabalho poderia ser alegre, divertido e rentável. Desse momento em diante, fiz diversas exposições em BH. Depois, no intuito de melhorar ainda mais, minha técnica e expressão artística, fui para o Rio de Janeiro/RJ, onde vivi uma imersão com os maiores professores que vivem na cidade, como Charles Watson, Eduardo Berliner, Cadu e Arthur Chaves, no curso Procedência & Propriedade que nos ensinava, não só técnicas, mas a ter um olhar interessante e filosófico sobre o processo criativo. Foi chegando o momento onde a arquitetura influenciava minha arte e a arte influenciava a minha arquitetura, me fazendo perceber, que ambas haviam se unificado ou sempre estiveram. Mesmo com todos as tecnologias contemporâneas, o desenho continua sendo a minha forma de desenvolver ideias e, em alguns momentos, de expressar e entender os meus sentimentos e emoções,” poetisa Leo, como ele é mais conhecido.
DE ONDE VÊM AS INSPIRAÇÕES? – “Com o professor Rui Santana, na Cooperativa de Ensino de Belo Horizonte – da 5ª a 8ª série - ele nos proporcionava uma olimpíada de História da Arte. Logo, nós buscávamos inspiração, desde a Pintura Rupestre até os movimentos artísticos mais contemporâneos. Porém, uma exposição que ele nos levou no Museu de Arte da Pampulha, com as obras de Salvador Dali, foi o meu 1º grande impacto, com algo, de fato, surreal e até o momento com um processo criativo complexo de se compreender. Esse se manteve no meu inconsciente como um objetivo a ser atingido na pintura. Kandinsky e Mondrian também me influenciaram bastante ao longo do processo. Ao passar dos anos e estudando cada vertente de modo mais profundo, Magritte foi fonte de inspiração em uma fase mais surrealista. Já no minimalismo, Frank Stella, Ellsworth Kelly e Rothko foram os que mais me proporcionaram inspiração. No que envolve arquitetura e arte, os que mais me impressionaram foram Quarto Vermelho (Desvio para o Vermelho - Cildo Meireles), Galeria Adriana Varejão: Projetada pelo escritório Taco Arquitetos, Hélio Oiticica, Beam Drop - Chris Burden, True Ruge - Tunga e Mattew Barney.”
FALE DE SUA PINTURA – “Durante muito tempo, pintei com tinta acrílica sobre tela, fazendo quadros. Com o passar do tempo, comecei a desenvolver trabalhos com tinta a óleo sobre tela em grandes formatos e o spray chegou, naturalmente, para compor os trabalhos. Em certo momento, fui começando a experimentar outras superfícies, como fachadas de hotel, portas, caixa d’água, armários, sofás, mesas, até chegar nos eletrodomésticos que temos em nossas residências. Nesse momento, senti novamente a arquitetura/decoração se integrando ao olhar artístico. Hoje, além de quadros, residências e projetos arquitetônicos, faço customização de eletrodomésticos, principalmente os, de cozinha, ambiente tão querido por nós, mineiros. Isso proporciona um toque artístico minimalista no ambiente e na experiência vivida nele. O tempo para realizar cada obra é muito relativo. Têm quadros que fiz em uma explosão artística de um dia, porém traziam em si conceitos e percepções de uma vida. Alguns outros, levaram mais de 3 anos, em um constante processo de ir e vir. E existem ainda alguns que sigo desenvolvendo, refletindo, observando, intervindo e criando alternativas estéticas, há mais de 10 anos.”
DESAFIOS E DIFICULDADES – “Cada fase da vida nos proporcionam desafios e dificuldades diferentes que, de certa forma, nos impulsionam a evoluir. Uma dificuldade, quando eu ainda era criança, era expressar corretamente a perspectiva em espaços e objetos, ao fazer desenhos de observações. Na faculdade, aprendendo algumas técnicas específicas, isso acabou ficando simples. E foi algo que proporcionou admiração do Fernando Vignoli em nosso 1º encontro. Porém, acredito que um desafio que sempre nos acompanha é de evoluir nosso trabalho e o nosso ser. Foi o que me levou a continuar praticando e estudando, ao executar exercícios de toda a linha do tempo da história da arte, do rupestre, até a arte conceitual. O minimalismo encheu os meus olhos com sua simplicidade e sofisticação, o que, de certa forma, foi outro desafio. Isso, porque exigia uma certa ruptura, com todos os excessos de outros estilos que já havia me proposto a explorar. Porém, junto com a dificuldade, veio o potencial de tudo já estudado antes, principalmente a geometria, me ajudando a criar perspectiva e movimento, com essência na pureza e simplicidade da ideia. Em um olhar mais amplo, eram fluidos, espontâneos, intensos e sempre gratificante, me proporcionando uma forma de perceber o valor do que crio e do que sou. Afinal, o que criamos está sempre correlacionado ao que somos!”
ALGO MAIS? – “Ao longo da minha trajetória, participei de diversas exposições coletivas em Belo Horizonte, entre 1999 e 2016, com mostras realizadas em variados espaços importantes, como Unibanco e Palácio das Artes. Também realizei oito exposições individuais, entre 2001 e 2017, em BH e Pará de Minas. Agora, receber o convite da GAZETA vai além de um jornal impresso e portal de notícias, pois sinto o pertencimento a um elo que vocês criam com a identidade cultural da cidade. Expor na Mostra GP é um enorme prazer. Novamente, algo fluido, natural e espontâneo. Uma sincronicidade temporal que me alegra é o fato de esse ano estar completando 25 anos da minha 1ª exposição individual, que foi no antigo Cine Café. No mais, para adquirir uma arte minha basta entrar em contato comigo pelo (37) 9 9112-7277 ou pelo Instagram @leopoldomendess”
O arquiteto e artista plástico Leopoldo Mendes, tendo ao fundo uma de suas belas obras expostas na nova Mostra GP, na recepção desta GAZETA: “O que criamos está sempre correlacionado ao que somos”